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30 de agosto de 2011

Atenção às Condições de Estudo

Este breve texto é uma adaptação de um outro, velho conhecido, o qual me permitiu colocar os dois pés no campo do marxismo. Refiro-me ao texto "Atenção às Condições de Vida das Massas", do camarada Mao Tse-Tung. Caso já tenha tido contato com ele, ou ainda possa ter, após a minha 'divulgação', verá que a semelhança é tamanha, e em meios acadêmicos (estranho ao Marxismo, en passant) poderia ser considerado como plágio, porém, tal brincadeira não vem ao caso.
A situação tratada no texto aconteceu no antigo CEFET-PA, hoje chamado de IFPA, e anteriormente, Escola Técnica Federal do Pará, durante o início do ano letivo de 2009, no ano de centenário da instituição, durante a minha segunda passagem pelo Grêmio Estudantil Cabanagem (GECA).
O que julgo destacar de importante aqui é o caráter concreto do movimento que tal texto descreve, e como algumas de suas análises são importantes para muitas situações ainda hoje, até dentro da universidade, ou principalmente, como queiram. 
Ainda que possa paracer, à primeira vista, uma aplicação de uma equação geral que a tudo daria solução, essa equação só poderia existir enquanto fundada na análise concreta de cada situação concreta, logo não poderia ser geral. O máximo a que chegaríamos seria: "Lutar pelas necessidades imediatas da vida de todos os estudantes em cada situação específica!". Claro, nunca abdicando dos objetivos comuns e gerais.
Vou inserir aqui também os documentos referentes a esse período, são eles a 1ª parte do abaixo-assinado referido no texto, e a lista da primeira reunião de organização do PROEJA, que o leitor entenderá ao longo do mesmo. Pensei em escrever o nome de todos, mas devido à algumas caligrafias, tornou-se impossível tal tarefa. Infelizmente a única lista que me restou foi a primeira, então, consequentemente uma parte dos alunos que participaram do movimento não poderá ser identificada aqui, pois se integraram ao longo do cresimento do movimento.
No mais, peço a compreensão pela falta de competência teórica que possa ser notada, pois, nesse período ainda não havia estudado tanto a Ciência Marxista como hoje. Porém, não dispenso as críticas:

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Nosso principal objetivo, no momento, é mobilizar as massas estudantis para tomarem parte no movimento estudantil e, assim, vencer a falta de estrutura geral da educação e o oportunismo, tanto de direita, por entidades aqui presentes, quanto de esquerda, imposto por movimentos equivocados que se encontram por aqui,
ambos desgastando a força dos estudantes, a após isso, conseguirmos levar todo o alunado ao êxito no movimento estudantil. Não é um bom militante do movimento aquele que encara levianamente esse objetivo principal. Se os nossos integrantes realmente tomarem em mãos essa tarefa central e compreenderem que o movimento precisa absolutamente ser levado a todos os alunos da instituição, então não lhes será possível subestimar, por pouco que seja, nem encarar levianamente o problema dos interesses imediatos do alunado, o problema de suas condições de vida estudantil. Como as reivindicações estudantis, são reivindicações dos, e em prol dos estudantes, só poderemos levá-la a cabo mobilizando o alunado e apoiando-nos nele.

Poderemos alcançar nosso objetivo de vencer essas barreiras se fizermos algum outro trabalho que não seja voltado para as condições de estudo das massas? Está claro não. Se quisermos vencer, temos ainda muito trabalho a fazer – dirigir as turmas nas suas lutas dentro da sua sala de aula, dirigir os cursos na organização dos mesmos, na organização de seu bloco, na luta pelos seus laboratórios, dirigir o alunado na resolução dos problemas de bebedouros, banheiros, campos, quadras, biblioteca, lançamento de notas. Em suma, todos os problemas com que se defronta o alunado em sua vida real devem merecer a nossa atenção. Se tomarmos com decisão esses problemas, e os resolvermos de forma a satisfazer as massas, seremos realmente os organizadores dos estudantes e eles realmente se unirão em torno de nós e nos apoiarão. Pessoal, poderemos então chamar as massas estudantis a participarem no movimento estudantil? Certamente que poderemos.

Encontramos o seguinte estado de coisas entre o nosso pessoal. Fala-se apenas em se marcar reuniões fechadas com os dirigentes da instituição, enviar ofícios, requerimentos, seja o documento qual for, fala-se de alguns problemas, mas, dos principais problemas das condições de vida estudantil pouco se fala, ou às vezes são até ignorados por completo. Como exemplo, vou citar o nosso desfecho até este momento, desde a época de formação de chapa. Tínhamos envolvidos ao nosso meio uma certa massa estudantil, fortificada nos cursos de estrada, edificações e design, além de agrimensura, química e eletrônica, porém, após a eleição e a nossa vitória, essas massas acabaram se afastando da organização estudantil, podendo ser perceptível através do afastamento de membros próximos, deixando o movimento estudantil aqui desestruturado, sem uma base forte para se sustentar. Parando e analisando o que se passou, nota-se que isso aconteceu devido a certa inexperiência de todo pessoal em lhe dar com as condições de vida das massas estudantis. Não soubemos nos lançar ao meio da vida estudantil das massas que nos apoiavam e devido a isso, perdemos o apoio delas. Não soubemos nos comunicar com a turma de design e verificar quais eram os problemas que eles tinham no seu dia-a-dia, não mobilizamos a galera de construção civil em torno dos problemas que afetavam suas condições de estudo. Discutiu-se a questão da meia-entrada cultural, mas não se verificou se era aquele o problema que afetava as condições da vida estudantil naquela ocasião. Pois não era.
O que ocorreu foi que os representantes de turma não se interessaram mais em comparecer as reuniões sobre o assunto e nem de repassar o abaixo-assinado. Os erros são muitas vezes precursores da verdade, então, com eles devemos aprender. Mas não só de erros foi forjado esse desfecho citado. Provavelmente ouvistes falar sobre o acontecido na turma de estradas do 1° ano, a qual encontrava como problema uma sala de aula em precárias condições, e um quadro inutilizável (o que não é novidade para ninguém que esteja na instituição há algum tempo), o que afetava diretamente as suas condições de aula. A solução tomada para esse problema foi mobilizar uma boa parte da turma para resolvermos esse impasse. Com essa massa mobilizada a Supervisão de Turnos não hesitou em atender a reivindicação, e o mais importante, essa turma nos encarou realmente como os organizadores dos interesses dos estudantes, e ganhamos sua confiança. A muitos olhos pode parecer uma insignificante conquista, mas se for observado que esse trabalho atentou para a condição de vida estudantil, foi um grande passo. Passo muito importante para amadurecer as idéias, e para permitir uma análise dessas condições, disponibilizando um progresso nesse sentido, criado junto aos alunos do PROEJA. Foi necessária a presença no cotidiano dessas massas, para se perceber os problemas que afetavam as condições de vida estudantil, para que pudesse ser feito um movimento demasiado forte e com diretrizes coerentes e organizadas. Depois de completado um mês de mobilização, as reuniões continuavam sendo ansiosamente aguardadas e os alunos ainda apresentavam um entusiasmo essencial. Essa mobilização que resultou em um abaixo-assinado que foi entregue em plena câmara municipal ao reitor da instituição, perante uma exposição dos reais problemas com os quais nos defrontamos, com o apoio de alunos da manhã e também de alunos do PROEJA que deixaram até de trabalhar para lutar por melhorias nas suas condições de vida estudantil. Precisamos aprender com esses dois bons exemplos e opor-nos a esse método por vezes burocrático, por vezes esquerdista, de dirigir, o principal responsável pelo afastamento das nossas bases massificadas.

Foi proposto a essa diretoria, que dedicássemos profundo interesse aos problemas e as condições de vida estudantis das massas, desde o problema dos quadros, da falta de professores, da falta de infra-estrutura, da alimentação, de higiene pública. A turma de agrimensura quer trocar de sala. Quem nós mandaremos para ajudá-la nisso? A turma de eletrônica não tem notas lançadas. Quem nós chamaremos para dirigir essa luta? A biblioteca não funciona. Que medidas nós tomaremos? Todos esses problemas, relativos às condições de vida das massas, devemos colocar na nossa ordem-do-dia. Devemos discutir essas questões, tomar resoluções sobre elas, agir e controlar os resultados. Devemos fazê-la compreender, partindo dessas questões, as tarefas do movimento estudantil, de forma que elas apóiem o movimento e o levem, inicialmente, ao instituto inteiro. Respondendo as reivindicações estudantis e lutando o necessário para essa vitória. Certos estão os alunos do PROEJA, que se organizam de forma coesa em torno dos problemas de suas condições de vida estudantil, assim como os alunos de estradas que conseguiram trocar de sala com organização. E vale destacar que não devemos temer nenhuma reação seja por parte de oportunistas ou pela direção. Pois, unindo as massas estudantis em torno de suas reivindicações, seremos capazes de vencer qualquer contra-movimento e alcançar nossos objetivos.




Abril de 2009.


Um comentário:

  1. Eu sou um dos que ainda não tiveram contado com a obra de Mao Tse-Tung, sendo que conheço apenas a sua história factual e talvez por isso ainda não tenha me interessado muito, criei uma certa antipatia com algumas de suas atitudes políticas. Porém creio que o seu legado deva ser estudado e levado em consideração, pois o “Livro Vermelho”, talvez o principal de sua autoria, foi um grande arcabouço teórico utilizado pelo grande movimento negro dos Black Panthers (Panteras Negras) nos EUA, movimento pelo qual tenho grande admiração.

    Quanto ao texto, apesar de “nesse período ainda não havia estudado tanto a Ciência Marxista como hoje”, é perfeito no que se propõe, na elaboração dos erros dificuldades e alternativas do Movimento Estudantil atualmente. De modo que este deve mesmo centralizar os esforços nos problemas elementares de nós estudantes para conseguir mobilizar as massas estudantis. Deve-se deixar de lado a politicagem, as divergências e a burocracia (não se ater nela), pois o mais importante é a mobilização e a participação constante de todos os estudantes nestas reivindicações , com o propósito de manter o interesse constante de todo o alunado nas lutas. Esse afastamento é retrato também do modelo em que vivemos, da falsa democracia representativa, onde se elegem falsos representantes e entregamo-nos um “cheque em branco” durante quatro anos. Isto se reflete nas demais instituições, inclusive no movimento estudantil, onde, assim como nas eleições tradicionais, só há certa ‘agitação política’ nas campanhas eleitoreiras, no restante do tempo, volta-se à inércia.
    Somente com o engajamento pleno, com ampla e igualitária participação de todos no processo político estudantil, é que o Movimento poderá vislumbrar de novo um desempenho de conquistas significantes.

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