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10 de novembro de 2010

Sobre "Tropa de Elite 2"


É um filme excepcional. Expõe a realidade de maneira chocante. Como disse aos meu amigos: “sabe aqueles filmes que quando tu acabas de ver e sai da frente da tela, parece que demora um pouco pra cair a ficha que a realidade é outra? Pois é, esse não é um deles”. Com relação ao primeiro filme, que tenta mostrar um BOPE como exemplo e solução no quesito segurança e ordem, um BOPE isolado do sistema (o que significa fugir da realidade) esse segundo filme ganha de goleada. Ele expõe que na realidade o BOPE é apenas uma peça, e que matar traficantes, por exemplos, é funcional ao sistema, ele serve ao sistema. E que mesmo matando todos os traficantes eles só não aparecerão de novo se algo tomar o seu lugar, e que esse algo foi a milícia do Rio. O campo de visão do filme se estende mais um pouco e pode se ver que por trás de todas essas ordens e ações estão interesses muito maiores, interesses políticos, interesses de políticos que representam sempre as classes dominantes, e que todos essas instituições na verdade se encaixam em um aparelho de dominação, onde funcionando corretamente estão apenas cumprindo seu papel, seja de repressão, ou similar. Tornando as favelas, que antes eram dominadas pelo tráfico e até cuidadas pelo tráfico, imensos currais eleitorais. Até a figura da pessoa que se deparou com a brutal realidade, encarnada no Capitão Nascimento, chegar a incrível e lógica conclusão de que a PM tem que acabar. Claro, teria que acabar se o interesse de quem domina hoje não fosse mais de continuar dominante.

Outro ponto que o filme mostra é o de que aquelas funções não dependem do indivíduo, é tudo gerado pelo próprio sistema. Não importa que morra um político, ou um policial corrupto, o sistema sempre terá outro para ocupar seu lugar, sem distinção de cor, de origem social ou algo parecido. Pois, justamente, o problema não está na essência daquelas pessoas que assumiram tal cargo, não está no caráter do político que é eleito, mas está na razão pela qual o político existe, na razão pela qual a polícia, o exército existem, na razão pela qual as contradições existem.

O inimigo sempre foi outro.

Um comentário:

  1. Maturidade e realidade são algumas das palavras adequadas para definir esse filme. Cabe mencionar, Uislan, que esse filme representa um certo avanço (se é que posso usar este termo) em relaçao ao anterior: deixa claro que a violência e a repressão sozinhas não são suficientes para combater as milícias ou mesmo o narcotráfico, uma vez que as causas do problema são estruturais. O envolvimento de parlamentares e de representantes da segurança pública mostra isso. Nesse sentido, realmente, o inimigo sempre foi outro.
    E, diga-se de passagem, tua análise está excelente.

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